Especial
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Uma observação do mundo e dos negócios por um ponto de vista humanista, buscando explorar uma nova possibilidade de gestão e de Marketing.
Peça textos na íntegra pelo e-mail edsonoliveira@oi.com.br.
AS CIDADES SÃO UMA ARMADILHA
PARA OS PORTADORES DE QUAISQUER DEFICIÊNCIAS
NÃO PARECE, mas é a mais pura verdade. Observando a dinâmica arquitetônica de qualquer cidade grande, imaginamos que algumas edificações foram criadas para pessoas gigantescas e outras para pessoas menores que as de estatura normal, sem chegarem a ser portadores de nanismo. Algumas são absurdamente desconfortáveis. Há um dado de informação em todas esses edifícios, inclusos, aí, todos os tipos de edificação, sejam residenciais, sejam comerciais, sejam mistos, que nos leva a refletir na história da construção de todas as cidades.
A afirmação não é pueril, ela contém milhares de horas de observação e muitas fotografias para e analisar e pensar a arquitetura e a história da arquitetura das cidades. Na busca para tornar os espaços habitáveis mais ajustados às atividades, porém levando em pouca conta as pessoas, todas elas, as edificações eram espaços para a atividade produtiva ou para o simples abrigo. Só os mais abastados tinham alguma preocupação com a iluminação dos ambientes, com o arejamento e o conforto, no entanto esta preocupação se devia ao fato que essas pessoas viviam uma vida social intensa de recepções, festas, convescotes, saraus, etc. Os convidados ficavam extasiados com a amplitude dos espaços, com a vista, as luzes que entravam pelas imensas janelas, o vento que refrescava os salões apinhados de gente nobre. Um detalhe, não se via portadores de deficiência entre eles. Deficiência era coisa de pobres e de pecadores. As cidades eram construídas para pessoas de grande prestígio e os prédios operacionais eram planejados para as máquinas e equipamentos para o exercício do ofício.
Não há, até hoje, nas grandes cidades uma política cidadã que inclua as pessoas portadoras de quaisquer deficiências, o que torna os espaços urbanos uma verdadeira armadilha para os portadores de deficiência. São mobiliários mal posicionados que atravancam o caminho ou impedem a visibilidade até das pessoas com boa visão. Persiste a idéia de que as cidades são construídas para o trabalho e o consumo, não para o bem estar e o conforto das pessoas, de forma que elas possam circular sem que um objeto do mobiliário urbano cause algum prejuízo à integridade física, à livre circulação de cadeirantes, amputados, usuários de próteses de membros inferiores e outras ausências físicas circunstanciais. Consideremos que, pessoas sem quaisquer deficiências físicas têm dificuldades sérias para circular pelos espaços urbanos, seja por severas alterações no piso das ruas e calçadas, seja na má colocação e posicionamento das placas de sinalização, que impedem a visão e podem causar ferimentos, dos postes de iluminação, dos sistemas de ventilação, nos meios-fios das ruas, irregulares e baixos ou altos demais, o que cria insegurança permanente para quem circula. E nem estamos falando, ainda, da arquitetura das edificações.
Em seu livro “A Estrutura Ausente”, Umberto Eco, ensaísta, escritor e teórico da Comunicação italiano, fala sobre os signos arquitetônicos, sua caracterização, suas relações semiológicas, seus aspectos comunicacionais, suas subjetividades de acordo com os momentos históricos, com os “herdeiros” desses objetos de uso, a questão da função primeira em relação à função segunda, terceira, deformações das funções com os códigos de enriquecimento, que propõe adaptações, transformações, transposições, criando funções primeiras vagas e funções segundas imprecisas e deformáveis. Ou seja, não há denotação imediata entre o objeto arquitetônico e sua função. Portanto, tais objetos podem ser preenchidos e carregados de significados sucessivos, atribuíveis não só pela via conotativa como pela denotativa. Trocando em miúdos, a arquitetura, enquanto elemento de comunicação, mais confunde do que esclarece, uma vez que utiliza códigos de várias linguagens para construir um certo objeto arquitetônico(Observem os abrigos de ônibus na cidade do Rio de Janeiro. São abrigos ou out-doors?). Segundo Umberto Eco, “o objeto de uso é, sob o aspecto comunicacional, o significante daquele significado exata e convenientemente denotado que é a sua função. Em sentido mais amplo, o que se disse é que o primeiro significado do edifício são as operações que se devem realizar para habita-lo (o objeto arquitetônico denota uma forma de habitar)”. De forma imprecisa, a arquitetura moderna apresenta as funções de passar, entrar, parar, subir, estender-se, debruçar-se, apoiar-se, segurar, etc., não apenas como funções possíveis(primárias), mas, além disso, significados e modos de uso que vão além de sua funcionalidade.
As oscilações entre as forma e a História, entre a História e as histórias, as histórias, a História e os herdeiros dos objetos arquitetônicos, confere uma mutabilidade funcional destes objetos, levando a crer que, dentro de algum tempo as cidades estarão prontas para o uso pleno de todos os cidadãos, incluídos os portadores de deficiências. Paradoxalmente, não se vislumbra em curto horizonte essa cidade cidadã, por conta de políticas equivocadas, da absoluta falta de planejamento, que está diretamente ligado à audição das populações diretamente atingidas por um determinado plano.
Nada, absolutamente nada nos assegura que as dinâmicas de transformação do pensamento cidadão, da busca pela inclusão, das mutações históricas da arquitetura urbana, feita de algum modo pela Filologia e pela re-criação, seja, por isso mesma, positiva, porque o nosso tempo é o tempo do enriquecimento e do esquecimento, da recuperação, da aceitação e da repulsão, de uma revolução que não revoluciona nossa cultura. Cultura, essa, cheia de tabus, totens, preceitos, dogmas, conceitos e preconceitos. Uma ideologia moderna como esteio do passado, que corrobora a exclusão, num discurso filológico, retórico, comunicacional e arquitetônico que remete ao passado. Uma globalização tão provinciana quanto refratária a novas formas e novos signos, impondo novos significados distantes do repertório lingüístico, estético e cultural dos cidadãos. Cidadão ainda não plenos.
As cidades são para as pessoas, não o inverso. Seguindo esse pensamento, as cidades devem e precisam, urgentemente, se transformar para dar segurança, conforto e bem-estar para as pessoas que por ali trafegam, trabalham, habitam, vivem. As cidades precisam prescindir dos seus significados e significantes fora do elemento humano, partindo das necessidades do elemento humano para a construção do ambiente favorável, sistematicamente humanizado, para que as armadilhas ocultas e/ou disfarçadas desapareçam e as cidades, além de funcionais, que é sua função primeira, seja, também, esteticamente limpa e bela, agradável e, principalmente, habitável.
COMO A CORRUPÇÃO CORRÓI OS NEGÓCIOS
E ARRASTA O PAÍS PARA O ATRASO
TREZENTOS E OITENTA BILHÕES DE REAIS.
É isso mesmo. R$ 380 bi.
Foi quanto a corrupção custou, somente em dinheiro rastreado, ao Brasil, no ano de 2004. Já no ano de 2006, a corrupção desviou da legalidade um valor que gira em torno de 5% do PIB, que em 2004 foi de cerca de US$ 604 bilhões. E de 2004 a 2006 o PIB cresceu cerca de 3% a 4% ao ano. Não foi um crescimento espantoso, os chineses cresceram algo em torno dos 8% anuais, mas dá pra perceber que muita gente tirou o pé da lama, ou melhor, muita gente se chafurdou mais ainda no lamaçal em que se transformou a política e os negócios nesse país.
E os números não param de crescer.
O problema, a princípio, parece contábil, quando se percebe que as contas não batem e os custos das compras estão acima da média aceitável. Via de regra, a coisa está presente na vida das pessoas. É o comprador que aceita aquele agradinho do vendedor, para que ele dê a preferência do fornecimento. E os dois acham que não há nada de errado com isso. Só que um ganha para fazer a melhor compra, ou seja, pagar menos por mais qualidade e quantidade e, o outro, ganha para fazer girar os produtos ou serviços da Empresa em que trabalha, com a melhor negociação, com as melhores argumentações para justificar e explicar a diferença, para menos ou para mais, no seu preço. Mas não estou aqui para dar aula de negociação, o papo é corrupção, que afeta, de maneira profunda, o andamento dos negócios e impede o crescimento econômico, individual, empresarial, educacional e cultural de toda uma nação. Assim, vem a clássica pergunta sobre quem é mais ladrão, aquele que assalta um ônibus ou aquele que desvia dinheiro público. De fato, os dois o são, independente das justificativas sociológicas.
Vamos tentar raciocinar um pouco sobre umas poucas questões. Comecemos por uma perguntinha bem despretenciosa: VOCÊ É HONESTO? Independente da resposta que você dê para si mesmo, vamos pensar em outra mais incomodativa: AFINAL, O QUE É MESMO HONESTIDADE? Como pensar honestidade numa sociedade de moral flexível, onde a noção do que é imoral está se perdendo e, a cada dia que passa, mais se banaliza o crime? A princípio isso tudo parece elocubração filosófica, todavia, o problema começa – e termina - justamente aí. A idéia de moralidade não é, puramente, uma questão ética. E, entenda-se por ética, a ciência, o conhecimento dos princípios de moralidade, do código de conduta estabelecido e aceito por uma estrutura social. Para que isso ocorra, são necessários alguns parâmetros que darão o norte aos preceitos de moral e de convivência. É o que muita gente chama de educação. Só que tais parâmetros são estabelecidos pelas lideranças daquela estrutura. Numa sociedade individualista, centrada na idéia do indivíduo e no quanto ele é capaz de valer em dinheiro, ou seja, quanto o indivíduo cobra pelo seu “passe” ou quanto ele é capaz de fazer o seu “preço” subir frente às ofertas que se apresentam, o quanto gorda é a sua conta bancária... tudo se transformou em produto, em moeda de troca. Daí para o reconhecimento é menos que um passo. A questão moral é uma EQUAÇÃO DE VALORES, não de preço. Então, duas outras perguntas se fazem necessárias: 01- QUANTO VOCÊ VALE? 02- QUANTO VOCÊ CUSTA(ou: qual o seu preço?).
Essas coisas começaram a ser estabelecidas nos anos 1980, com o surgimento de um grupo de jovens muito bem sucedidos, os famosos yuppies, cultura muito bem retratada no filme WALL STREET, onde um jovem corretor da bolsa de New York não percebia os limites para ganhar dinheiro. Para ele tudo estava valendo para acumular mais capital e engordar sua conta bancária, inclusive o uso de métodos ilícitos. Tudo sem culpa ou remorso. Levar empresas à bancarrota, lesar pais de família roubando-lhes as economias, incentivando a compra de papéis podres. Mas, afinal, quem se importa, se até aqueles que se dizem defensores das minorias e dos excluídos estão “se dando bem” com a sustentação da miséria alheia?
Voltemos aos números do Brasil, que é o 59º no ranking dos países mais corruptos do mundo. Os Estados Unidos estão na 15º posição e a Finlândia está encabeçando a lista. Mas atente para uma coisa, a lista começa no menos corrupto e vai subindo para os mais corruptos. Bacana, não? A China, apesar de exigir a cabeça, nesses casos, não está numa posição muito confortável. Que isso não nos deixe confortáveis, a Finlândia e a Noruega estão entre as nações mais ricas do mundo, o nível de analfabetismo é zero, as riquezas nacionais são distribuídas, igualitariamente, por toda a população, de forma que não existem pobres por ali. E eles nem pensam em conquistar o mundo. O Brasil, com empresas estatais que faturam zilhões de dólares por ano, muito mais que Noruega a Finlândia, não coloca Um Centavo, sequer, no que realmente importa para o real crescimento da população, que é educação. Patrocínio de eventos culturais só tem sentido se a população vai tirar real proveito disso. De resto é entretenimento, é circo.
Numa pesquisa divulgada pela revista Exame, chegou-se às seguintes conclusões e alas não são nada animadoras. Vamos aos percentuais:
- 21% das Empresas aceitam subornos para conseguir favores;
- 25% das Empresas têm até 10% de suas receitas desviadas para custeio de subornos;
- 50% das Empresas já foram achacadas;
- 70% das Empresas gastam até 3% do seu faturamento com pagamento de propinas;
- 87% das Empresas afirmam que o pagamento de propinas é uma ação rotineira;
-96% das Empresas garantem que a corrupção é um dos maiores entraves para o desenvolvimento.
E não estamos falando de toda a realidade, muita gente não disse a verdade ou não se pronunciou, por motivos óbvios. O que vemos é só a ponta do iceberg. Faça as conta e perceba o quanto eu, você, seus filhos, vizinhos, amigos, sua cidade, seu Estado e o seu País estão perdendo, e não é só dinheiro, com a falta de investimento em infra-estrutura de saúde, de educação, de transporte e segurança. Daria para construir outro Brasil.
Mas, espere aí!? Com a prática do suborno, a segurança dos negócios e das pessoas vai pro beleléu! É isso mesmo, o problema da corrupção é, antes de tudo, uma questão de educação, de civilidade, de senso comunitário, de coletividade. Aquilo que nos torna, plenamente, cidadãos. É, por isso mesmo, que se torna um crime grave, porque atinge, duramente, a vida de pessoas que nem sabem da existência umas das outras.
Há alguns anos era exibida na televisão uma série detetivesca, onde o personagem-título, num dos episódios, dizia para um outro personagem que se dizia inocente: “Ninguém é inocente, todo mundo já fez alguma coisa, na vida, de que se arrepende até hoje”. Romântico, não? Maniqueísmo brabo. Mas isso é coisa do passado, dinheiro compra tudo, até consciência. Essa, talvez, seja o máximo em falta de educação. A mais absoluta falta de caráter, ou, como dizia meu avô, lavrador de pouco estudo, sensibilidade e inteligência inigualáveis, estudioso e leitor voraz, crítico virulento da política e dos políticos, “FALTA DE VERGONHA NA CARA”. Ele dizia que um Homem que tem “vergonha na cara” não faz nada do qual, um dia, venham lhe apontar o dedo acusador. E que se isso acontecesse o sujeito teria que engolir o próprio dedo. Mas, meu avô, como homem de vergonha na cara e de Honra, morreu pobre. Mas todos o amavam e respeitavam. Ninguém tinha nada contra aquele homem. Se eternizou ali. Foi ele quem mostrou, sem nunca ter derramado uma gota de sangue, que Honra se lava com sangue. Porque a Honra é o bem mais precioso, que agrega afetos e não cria desafetos. Mas, acima de tudo, faz o amálgama das relações de afeto.
Honra. Era, afinal, aqui, que teríamos de chegar. O que será isso? É sentimento de dignidade própria, boa reputação, integridade de caráter, probidade. Trocando em miúdos, “vergonha na cara”. Essa expressão parece muito dura, mas tem de ser assim. Depois da invenção dos eufemismos e do politicamente correto, ninguém pode chamar um mentiroso de mentiroso, deve-se dizer que “faltou com a verdade”. Quem omite falta com a verdade, mas não é necessariamente mentiroso. Quem aceita propina está roubando a Empresa, mas não se considera um ladrão. Quem compra um CD ou um DVD pirata é um receptador, está financiando e é cúmplice de um crime, aliás, de vários crimes, a saber: formação de quadrilha, roubo de propriedade intelectual, sonegação fiscal e por aí vai. Mas, todos têm uma justificativa para isso. Só que não atentam para o fato de estarem contribuindo para o aumento da violência e do crime. São os mesmos que alardeiam que criminosos devem receber a pena capital, que policiais que se mancomunam com criminosos devem ser executados em praça pública. Isso é o princípio do fim do Estado de Direito, do Estado civilizado. A idéia de impunidade já está dentro do padrão cultural. Estão chegamos àquelas histórias de rabo preso. Quando uma pessoa se vende ou se deixa comprar, deixa de ser livre. Está irremediavelmente ligada à outra pelos laços da escravidão. Ficará sempre temeroso de que o outro “abra o jogo”, numa situação em que esteja com “a cabeça a prêmio” e estrague sua vida. Não há mais o sentido de honra entre os ladrões. Quando a coisa “fica preta”, “neguinho” dá logo com “a língua nos dentes” e “dá logo o serviço”, “entrega” todo mundo. É só lembrar daqueles “mauricinhos” de classe submergente que espancaram aquela doméstica. É, acharam que era uma prostituta. Mesmo que ela fosse, eles não tinham o direito de fazer isso. É homossexualidade latente. Depois a gente fala mais sobre isso. São jovens corrompidos por outra forma de corrupção, tão ou mais grave que a financeira.
Não há nada mais escravizante do que estar “preso” a outra pessoa por uma razão execrável ou por motivos inconfessáveis. Mas, numa sociedade sem princípios, de moral flexível e ética volátil, é, na prática, impossível alcançar altos estádios de desenvolvimento social, cultura, econômico e político. Uma sociedade que se sustente no longo prazo e que seja universalizada. Assim, eis que surge uma sociedade de castas putrefatas, onde os mais espertos locupletam-se cada vez mais, em detrimento de uma maioria, incentivando, mais e mais, a impunidade, a violência e a idéia de que o crime compensa.
O problema é que algumas coisas são imutáveis. Uma delas é a marcha inexorável para a morte. Os negócios não podem sobreviver em um ambiente instável. Nenhuma vida se desenvolve, em sua plenitude, ali. Assim acontece. O movimento vital do universo. Corrupção leva à impunidade, que empurra para a criminalidade, que, por sua vez, é irmã gêmea da violência, em todas as suas variações. E violência redunda em terror e morte. Morte de pessoas, morte de Empresas, morte dos lucros.
Sem perspectivas de vida longa, investimentos não aportam, a economia não anda e a estrutura social desaba.
É o que causa a morte de nações e faz prosperar a escravidão.
Enquanto isso, os abutres estão à espreita e as hienas sorriem, aguardando o mau cheiro dos cadáveres, para que alimentem seu insaciável apetite de matéria social em decomposição.